Revolução do Alimento

quinta-feira, Novembro 17, 2016
A Agropecuária Tropical Sustentável e o Processo Civilizatório - Desafios do Brasil e dos Países Produtores de Alimentos do Cone Sul
 
Num processo transcorrido ao longo de 40 anos, a plataforma de ciência, tecnologia e inovação aplicada sobre a região do Cerrado brasileiro transformou o paisl de importador líquidos de alimentos em ator central da cena global. E de forma sustentável: substituiu o modelo destrutivo de ocupação da Amazônia; preserva 51,4% da cobertura nativa daquele Bioma; desenvolveu novas tecnologias que permitem ampliar a para produção de alimentos majoritariamente através da conversão de áreas já degradadas.
 
Durante a visita que fez ao país, no início de 2011, o Presidente dos EUA, Barack Obama, trouxe-nos uma mensagem carregada de relevância histórica: instava o Brasil a se preparar para ocupar um lugar central na segurança alimentar do planeta. Era a primeira vez que um líder mundial reconhecia plena e explicitamente o papel e a responsabilidade dos brasileiros em campo tão significativo para a paz mundial. Obama antecipava assim a provocação que seria feita por estudo da FAO, em 2012, segundo o qual o Brasil teria que responder com 40% da demanda suplementar de alimentos nas próximas décadas.
 
Estamos preparados?
Na verdade, muito além daquela gigantesca tarefa, o grande desafio é prosseguir alinhando o Brasil ao processo civilizatório global, cada vez mais pautado por valores universais consagrados. E, desta forma, conseguir traduzir em desenvolvimento social, econômico e ambiental o melhor que a presente oportunidade do cenário da demanda mundial nos oferece. 
 
Em última análise, não se trata apenas de promover o aprimoramento de tecnologias e estratégias na área da produção. O desafio mencionado é de tal monta que exige em absoluto aproximar – no que tange a percepção da opinião pública urbana interna - o sistema produtivo do conjunto do projeto brasileiro de sociedade, rompendo com resistente muro virtual que separa injustificadamente os mundos rural e urbano. E, no plano internacional, fomentar parcerias científicas e tecnológicas que estimulem e aprofundem o conhecimento sobre nossos seis Biomas principais, dentro do conceito de Integração Ciência, Natureza e Desenvolvimento. 
 
Só assim o Brasil conseguirá encontrar o seu lugar nas cadeias internacionais de valor do alimento e ao mesmo tempo alavancar seu desenvolvimento econômico (Renda e Emprego), social e ambiental nas próximas décadas.
 
Importante ressaltar que essas opções histórica somente existem hoje porque o Brasil conseguiu protagonizar a segunda revolução da oferta do alimento sustentável em escala planetária. A Agricultura Tropical Sustentável (ATS) foi construída sobre as mesmas bases que hoje devem pautar, orientar o próximo passo: a plataforma de Ciência, Tecnologia e Inovação como vetor central da visão estratégica do país.
 
Importante resumir a trajetória histórica deste processo, no qual a ATS registra dois aspectos centrais:
 
a) Estratégia Científica – Os Cerrados não eram nem minimamente produtivos, em função da nossa ignorância científica a respeito do Bioma, até então fortemente degradado. O Brasil importava soluções científicas aplicadas a climas temperados. E, portanto, a pauta inaugural do trabalho dos pesquisadores foi a recuperação física, química e biológica dos Cerrados, antes de desenhar um modelo produtivo para a região. 
 
b)Amazônia – A viabilização do uso econômico dos Cerrados foi determinante para o redirecionamento do modelo até então vigente, que focava na ocupação destrutiva da Amazônia. Dessa forma, podemos afirmar sem medo de errar que essa alteração de rota contribuiu decisivamente para preservar a floresta amazônica. Em essência, não se pode destruir aquilo que sequer conhecemos.
 
c)Economia – A transformação de terras degradadas em ativo econômico permitiu consolidar um eixo de desenvolvimento no Brasil Central, que hoje responde por 60% do total da produção de alimentos do país.
 
d)Sustentabilidade - Hoje, segundo INPE, 51,4% dos cerrados estão preservados e as novas tecnologias permitem dobrar a produção brasileira de alimentos sem exigir necessariamente a abertura de novas áreas, através principalmente da recuperação áreas já degradadas.
 
e)Impacto Social - Até meados dos anos 70, a população brasileira de baixa renda consumia entre 44% e 48% dos seus rendimentos para adquirir a cesta básica. Hoje, essa relação está entre 14% e 18%. Ou seja, o processo de democratização alimentar é produto direto do investimento em Ciência, Tecnologia e Inovação. 
 
É relevante compreender a natureza do processo de degradação dos Cerrados. As populações indígenas historicamente se utilizaram da metodologia da queima induzida da cobertura vegetal na região das nascentes dos rios, com o propósito de garantir que na rebrota das plantas os animais viessem ali se alimentar, concentrando-se numa área determinada e favorecendo a caça, pouco fértil na região.
 
A colonização realizada pelos homens brancos copiou o mesmo modelo. Nos meses de seca (Maio, Junho e Julho) o fogo era colocado em todo o Cerrado para fomentar a rebrota de capim verde, desta vez destinado a alimentação do gado. Houve então intensa degradação do Bioma. Os solos ficaram compactados, vitrificados, “cimentados” pela ação do casco do boi e a água da chuva não conseguia penetrá-los. Por ação da lixiviação e da erosão, as chuvas levaram para os rios todo o calcário e os demais nutrientes - a riqueza dos solos - criando o que se convencionou denominar uma “terra lavada”. .
 
Então, o primeiro investimento da Pesquisa foi no sentido da recuperação química, física e biológica dos solos dos Cerrados, que foram reestruturados com a adição de calcário, de magnésio e de fósforo. Na área física, foi no rompimento das camadas impermeáveis, de forma que o solo passou a absorver a água da chuva, fortalecendo o lençol freático. Aqui persiste um grande desafio a superar: incrementar a qualidade da gestão da oferta da água, já que o pais é rico em pluviosidade. 
 
As técnicas revolucionárias do Plantio Direto praticamente eliminaram o fenômeno da erosão do solo agrícola do país, um patrimônio hoje de valor inestimável e perfeitamente mensurável. O solo é a grande riqueza da Agricultura Sustentável, que dá suporte à interação com a água, as plantas, os animais e o clima. 
 
Por fim, e mais recentemente, a Pesquisa brasileira tem focado no manejo dos cultivos. A rotação de culturas, que caracteriza o sistema do ILPF (Integração Lavoura, Pecuária, Floresta) é uma tecnologia surpreendente e em evolução. A incorporação de plantas leguminosas (grãos) para fazer consorciação com gramíneas (milho) e de capim (braquiária) para a pastagem, fertiliza os solos, adiciona nitrogênio, e reduz a necessidade de adubação. As leguminosa proporcionam a simbiose com bacterías e induzem à fixação do nitrogênio do solo. Plantas de raízes mais profundas (a Braquiária chega a ter 4 metros de profundidade) ajudam na aeração e na reestruturação dos solos. 
 
A rotação dessas culturas permite um rodízio que começa com a soja, segue para o cultivo do milho e, em seguida, para a alimentação do gado. Tudo isto cercado de florestas plantadas e gerando várias safras por ano, sem muitos esforços. 
 
Essas tecnologias abriram a primeira caixa de segredos dos Cerrados, revelando os topázios e esmeraldas agropecuárias, que tanto motivaram os colonizadores antigos. Agora, precisamos abrir a segunda caixa de segredos, onde estão os diamantes, e esta passa pela irrigação e pela produção em estufa de alta tecnologia. 
 
Biomas, Plataformas do Futuro
O Brasil está pronto para dar a sua contribuição no aumento da oferta global de alimentos. E consciente de suas responsabilidades nas áreas ambiental e social. Não obstante, este desafio de gigantescas dimensões não pode ser exclusivo da Ciência brasileira. 
 
Mas, é indispensável promover uma aliança planetária da pesquisa, diante da complexidade do processo e o timing da curva demográfica, que pressionará inexoravelmente os preços dos alimentos e por conseguinte a possibilidade de inclusão de camadas até hoje não atendidas da população. 
 
Propomos uma abordagem sistêmica da pesquisa, organizada em torno de cada um dos Biomas brasileiros, onde reuniríamos cientistas da Embrapa, das Universidades e da iniciativa privada, e, de bom grado, pesquisadores e instituições da comunidade internacional que desejem agregar o seu conhecimento nesta luta. 
 
A cooperação internacional visando aprofundar a Pesquisa nos Biomas brasileiros vai gerar indiscutivelmente uma plataforma de conhecimento de grande valia para Biomas similares, como as savanas africanas e as estepes asiáticas. Conhecer o Pantanal, por exemplo, é conhecer as áreas úmidas de todo o planeta. 
 
A escala desse desafio precisa ser percebida tanto pelos parceiros internacionais quanto pelos atores internos na sociedade brasileira. Não conseguiremos ampliar a produção de alimentos em volume equivalente a 40% da demanda suplementar, como aponta a FAO, e ainda promover mais sustentabilidade e resiliência climática sem aprofundar severamente o conhecimento dos nossos biomas. Em suma, é preciso haver esclarecimento e compreensão por parte da sociedade quanto ao significado social, econômico e ambiental desta oportunidade história.
 
É imperioso que o conjunto das nossas sociedades percebam a Integração da Ciência, da Natureza e do Desenvolvimento como uma ferramenta primordial do avanço civilizatório. Aqui se situa um outro desafio, o de organizarmos e sistematizarmos a plataforma de informação dos dados científicos e promover a decodificação do seu significado social, ambiental e econômico, de forma a inserir esse debate na perspectiva da cidadania. A Comunicação aqui como instrumento transversal do conhecimento e canal para a negociação democrática com a Sociedade, que tem a última palavra na definição do nosso destino. 
 
Assim, teremos a certeza de que os jovens virão encorpar a nossa luta, e perceber que estamos solidamente comprometidos com os valores universais que balizam o comportamento das novas gerações. 
 
Estas as razões que motivam a assinatura da “Carta de Washington” e que nos animam a avançar na construção de um mundo melhor.
 
MINAS VERDE JOHN DEERE SEMPRE AO SEU LADO!
 


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